HENFIL E SEU TRAÇO CIRÚRGICO

5/fevereiro/2010

por Lídia Basoli

“Quando eu faço um desenho, eu não tenho a intenção que as pessoas riam. A intenção é de abrir, e de tirar o escuro das coisas”

Depois de alguns textos sobre criações fantásticas dos quadrinhos no mundo como o Calvin, a Mafalda e o Charlie Brown, chegou a hora de falar de um criador (é, ele foi mais do que um cartunista ou um chargista; ele ouvia o que não se falava): Henrique de Sousa Filho, Henfil, para os mais íntimos.

Muuuito prazer. Aliás, um prazer preciso, funcional, em um traço quase que invisível, mas que de tão profundo, deixa marcas sobre quem o lê. Henfil fez um tanto assim de gente pensar, através de desenhos sólidos, mas ao mesmo tempo, leves, que se desmanchavam em traços gargalhados de ironia, sarcasmo e acidez.

Henfil nasceu em Minas no ano de 1944. Bom, talvez Henfil não tenha nascido. Acho mesmo é que ele brotou da voz de um povo humilhado, massacrado e redimido de várias partes do Brasil. E como é costume dos grandes gênios, Henfil partiu cedo, em 1988, com apenas 43 anos, nos deixando órfãos de uma visão humorística acerca de um Brasil que ainda não mudou.

Mas essa partida breve não o impediu de ser intenso, de ser profundo, de criar personagens com uma velocidade espantosa, com a mesma gana que o cara tinha de viver. É, porque viver para ele é que era urgente. O resto não importava tanto.

Henfil, assim como seu irmão, Betinho (é, o cara genial da Campanha da Cidadania e da Ação contra a fome) era hemofílico. E em uma das transfusões de sangue, recebeu também o vírus HIV. Mas isso não tirou dele a vontade de existir no mundo, de deixar sua marca, ou melhor, o seu traço.

E o Henfil era tão inteligente que conseguiu subverter todo um contexto de ditadura no período em que viveu. Na verdade, não o contexto em si, mas fazia dos seus traços a arma para lutar numa guerrilha quase solitária em torno dos direitos do povo, na busca por uma suposta democracia que podia demorar, mas que não tardaria a chegar.

Deu vida a personagens intrigantes como “Os Fradinhos” (Frandins, no sotaque lindamente mineiro), uma dupla impossível formada pela acidez do “Baixim” e pela bondade ingênua do “Cumprido”, que juntos colocavam à prova o riso contido do leitor.

Também havia o “trio da caatinga” que criticava o Sul Maravilha, formado pela Graúna, Bode Orelana e o Capitão Zeferino. Sem contar é claro, o personagem típico do contexto da ditadura, aquele cara paranóico, Ubaldo, que de tão preocupado, tornava-se engraçado, numa caricatura invertida da realidade brasileira da época.

Ubaldo foi criado por Henfil depois da morte de Wladimir Herzog, em 1975, com o jornalista Tárik de Souza, mas só estreou em 1976, devido, olha só a ironia, à paranóia da época.

Henfil chacoalhou o país com as cartas que ele escrevia para a sua mãe, Dona Maria, no Pasquim e depois, em 1976, na revista Isto É, onde tinha liberdade para usar a mãe, através de uma literatura bem rasgada, para falar dos problemas do Brasil. Um gênio esse cara.

Uma pena que Henfil não conseguiu viver tempo suficiente para ver a democracia. Mas ele eternizou-se em seu desenho, tão veloz quanto seu pensamento, e que, creio eu, não eram apenas charges, mas sim cartuns de um passado político ainda bem atual aos nossos olhos.

Acho que no tinteiro que ele usava tinha sangue. E voz.

- Ah, Lídia, imagina, eu nem era tanto assim….
- Você ainda é Henfil…
- Sério? Então vou escrever uma carta para minha mãe falando sobre isso…
- Pois é, pra você ver…
- É, mas o que eu to vendo é uma esperança…igual a Graúna via quando a democracia estava próxima…
- Esperança? Do que, Henfil?
- De que o pão de queijo já assou… e de que ainda há muito a ser feito pelo Brasil…


Dia do Quadrinho Nacional

30/janeiro/2010

Dia 30 de janeiro é comemorado o Dia do Quadrinho Nacional. Tudo bem, tudo bem. O termo ”nacional” não deve, nunca, ser considerado um gênero (e você nem deve se basear na nacionalidade de um trabalho para considerá-lo bom).

Mas ufanismo à parte, segue algumas (poucas) dicas de quadrinhos legais da net:


A arte imita a vida – texto da jornalista Lídia Basoli sobre o belíssimo trabalho de Flávio F. Soares e A Vida de Logan.

Coelho Nero – por Omar Viñole

Revista Beleléu – excelente trabalho desse quarteto (tanto impresso quanto na web)


Brabos Comics – por Pablo Mayer

E no Blog dos Quadrinhos, do jornalista Paulo Ramos, está rolando uma verdadeira maratona de trabalhos, dos mais diversos. Vale a pena conferir: http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/dica/


Quarto Mundo na seleção oficial de Angoulême 2010

29/janeiro/2010

Ontem, dia 28, começou a 37ª edição do festival internacional de quadrinhos em Angoulême, um dos mais prestigiados do mundo.

E duas publicações do coletivo Quarto Mundo estão na seleção oficial de Angoulême 2010, a revista Garagem Hermética e o Informativo Quarto Mundo, na categoria Alternativa (ao lado também da publicação Top! Top!, editora Marca de Fantasia).

Para conferir alista de todos os indicados na categoria, clique aqui.

Parabéns para a galera da revista Garagem Hermética e a todos o coletivo Quarto Mundo!


Maratona no Blog dos Quadrinhos

27/janeiro/2010

O próximo sábado celebra mais um Dia do Quadrinho Nacional. Para marcar a data, o Blog dos Quadrinhos vai repetir a maratona de páginas virtuais de quadrinhos brasileiros.

“É o terceiro ano em que a divulgação é feita aqui no blog. A proposta é dar visibilidade a produções virtuais que, muitas vezes, são desconhecidas dos leitores de quadrinhos”, diz o jornalista Paulo Ramos, autor do blog.

E qualquer quadrinhista pode participar. Para saber mais detalhes, acesse aqui.

Siga o Blog dos Quadrinhos no twitter.

Obs: enviem os e-mails até o próximo sábado, data do Dia do Quadrinho Nacional. As mensagens que chegarem após esse dia vão ficar de fora da lista.


3ª Mostra Marília de Cinema – 5 a 9 de maio

23/janeiro/2010

A Kinoarte prorrogou as inscrições para a 3ª Mostra Marília de Cinema, projeto que agora será realizado de 5 a 9 de maio com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural – 2009.

As inscrições podem ser feitas até 26 de fevereiro e serão aceitos filmes realizados a partir de janeiro de 2008, em qualquer suporte, com duração máxima de 24min59s (incluindo os créditos).

Os filmes irão concorrer ao Troféu Seu Dito, uma homenagem ao cineclubista Benedito André, figura especial que por muitos anos manteve o Clube de Cinema de Marília. Haverá premiação em dez categorias: Melhor Filme (Júri Oficial e Júri Popular), Direção, Roteiro, Ator, Atriz, Fotografia, Direção de Arte, Montagem e Trilha Sonora. O melhor filme da Competitiva Nacional de Curtas também será agraciado com um prêmio de R$ 5 mil.

De acordo com o cineasta mariliense Rodrigo Grota, presidente da Kinoarte e idealizador da Mostra, “a ideia do festival surgiu em 2008 com o objetivo de estimular a produção e reflexão de cinema em Marília, cidade que nos anos 60 foi palco de três festivais nacionais: em 1960, 1967 e 1969. Esses festivais trouxeram à cidade realizadores, intérpretes e produtores muito importantes como Anselmo Duarte, Joaquim Pedro de Andrade, Roberto Santos, Luís Sergio Person, Hugo Carvana, Sérgio Hingst, Leila Diniz, Maurício do Valle, entre outros. Ao criarmos a Mostra Marília de Cinema queríamos incluir a cidade novamente no circuito dos festivais, inicialmente com o foco direcionado para os curtas e para o cinema independente, o que seria o primeiro passo para estimular a produção de filmes”, diz.

A 3ª Mostra Marília de Cinema estava prevista para ocorrer inicialmente de 13 a 21 de março de 2010, mas uma reforma no prédio que abriga a sala do Clube de Cinema de Marília contribuiu para que o festival fosse adiado: “Além de esperar pelo término da reforma, queremos também estender o prazo de inscrição para que mais realizadores se inscrevam. Como ainda há muita gente em férias, as inscrições devem aumentar a partir de fevereiro”, avalia Bruno Gehring, um dos coordenadores da Mostra.

Incrições e novo site
O regulamento completo da 3ª Mostra Marília de Cinema está no recém-lançado site do festival: http://mostramarilia.com/

Além do blog da Mostra, a ideia de um site é tornar o evento mais interativo e informativo para os interessados e agilizar a comunicação e divulgação da Mostra. “Com o site conseguiremos informar e tirar as dúvidas de quem quer participar da Mostra”, ressalta Grota.

A ficha de inscrição pode ser solicitada a partir do e-mail mostramarilia@gmail.com ou preenchida pelo realizador a partir do mesmo site da mostra. Além da ficha preenchida e assinada, o realizador deve enviar fotos do seu filme para o e-mail da mostra.

Atividades na Mostra
Além da Competitiva Nacional de Curtas, a 3ª Mostra Marília de Cinema deve contar com homenagens especiais a realizadores nascidos em Marília, com um ciclo de cinema japonês comandado pelo crítico Sérgio Alpendre (revista Contracampo), a Mostra Olhar Radical (longas brasileiros inéditos no circuito comercial), sessões especiais (retrospectivas, sessão maldita etc), debates, oficinas, cursos e o lançamento do quinto número da Revista Taturana (uma publicação da Kinoarte, com periodicidade trimestral, distribuição gratuita em festivais, e patrocínio do Ministério da Cultura via edital Pontos de Mídia Livre).

A 3ª Mostra Marília de Cinema, uma realização da Kinoarte com produção da Hora H Produções, conta com apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural – 2009, e apoio cultural da Prefeitura de Marília – Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Revista Taturana e Imaje Studio. A coordenação é dos cineastas Bruno Gehring e Rodrigo Grota.

Informações: 3ª Mostra Marília de Cinema – http://mostramarilia.com, http://mostramarilia.blogspot.com,


Informativos Quarto Mundo

15/janeiro/2010

Os Informativos Quarto Mundo estão disponíveis virtualmente,  versão pdf.

Informativo Quarto Mundo é uma publicação gratuita do coletivo de quadrinhistas independentes Quarto Mundo, criado em 2007. A publicação traz histórias em quadrinhos, artigos e novidades sobre o mercado nacional.

Até o momento foram lançados 4 edições (do n°00 ao 03). Para conferir, clique nos links abaixo.

Edições para download:
nº00 (2008)
nº01 (2008)
nº02 (2009)
nº03 (2009)


Assim em cima, assim embaixo

11/janeiro/2010

YESHUAH – ASSIM EM CIMA ASSIM EMBAIXO
Laudo Ferreira e Omar Viñole

por Talita Prado

Laudo iniciou sua pesquisa sobre a vida de Jesus no ano 2000, quando teve a certeza de quer era isso que queria fazer: (re) contar essa grande história, seja pelo olhar diferenciado dos quadrinhos, seja pela subjetividade do autor.
Um trabalho minucioso que contempla história e ficção. São nove anos de pesquisas, elaboração de roteiro e composição dos desenhos.

Laudo buscou contar a vida de Jesus de forma simples e humana, livre de ideologias e religiões, mas sem deixar-se envolver por polêmicas ou busca de novas verdades acerca de quem foi este homem.

Desafio e tanto que Laudo enfrentou e se saiu muito bem neste primeiro volume, pois seus personagens trazem novas perspectivas. A começar pelos desenhos que deixam os tradicionais padrões cristãos.

O autor constrói sua narrativa em cenário a partir de contextos históricos, que ao bem sabemos são muito diferentes dessas representações de Jesus e Maria de olhos azuis.

Maria aqui é uma menina que se torna uma mulher forte e que sem compreender exatamente o que significa ter um filho, encara o que lhe é dado e passa por todas as provações. Como personagem principal deste volume, o importante não está em sua virgindade, mas no fato de ser mulher, solteira e à espera de um filho numa sociedade machista e tão intolerante em relação às mulheres.

Yeshua chega a nós leitores em meio a uma onda de especulações sobre a vida desse homem que é tão conhecido e ao mesmo tempo tão misterioso.

A história contada por Laudo nada tem a ver com polêmicas sobre seu nascimento ou relacionamentos amorosos, como é o caso de O código Da Vinci de Dan Brown, que apesar de terem surgido paralelamente e ainda terem tido base nas mesmas fontes históricas (como os apócrifos), a versão de Laudo vem com uma sutileza, mostrando não mistérios e novas revelações, mas a humanidade de cada um, e o principal, a aproximação do acontecimento, a sensação de veracidade no sentido de nos reportar há mais de 2000 anos atrás.

Essa é uma verdadeira obra prima que vale a pena ser lida, acreditando em Jesus ou não, por que, segundo o próprio Laudo, isso é o que menos importa, pois “a caminhada de Jesus e seu Deus interior sendo construído é a possibilidade que todos temos de gerar sempre o melhor de todos nós” (Laudo, p. 154).

Yeshuah – assim em cima assim embaixo é uma obra muito bem realizada, com uma estética incrível, lindos desenhos e uma arte-final indiscutível graças ao colaborador e amigo Omar Viñole. É uma história deliciosa de se re-ler que deixa uma gostosa ansiedade pela sua continuação. Que seja breve então!


Coando o 6º café

7/janeiro/2010

Em breve!

Veja um pouco mais aqui e aqui. (ah, e aqui também)


Um brinde ao Universo HQ

5/janeiro/2010

O site UniversoHQ está comemorando 10 anos de existência hoje (sim, 10 anos!). E para celebrar essa data, diversos quadrinhistas (como André Kitagawa, mestre Julio ShimamotoLaudo e OmarLelis, inclusive nós, da Café Espacial - veja aqui) e profissionais da área prestaram sua homenagem. A mensagem de cada convidado (foram mais de 200!) pode ser conferida aqui.


Lindo calendário 2010, por Samanta Flôor

23/dezembro/2009

Estou encantado pela arte da querida e talentosa Samanta Flôor nesse calendário de 2010… Ficou perfeito.

Nem falarei nada, confira o link aqui.

Boas festas, e até 2010, que será repleto de novidades!